TIFF

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TILL NEXT YEAR

Com o 43º Festival anual de Filme Internacional de Toronto (TIFF) a chegar ao fim, o mesmo acontece também com mais um ano de drama, mais um ano de controvérsia, e mais um ano de grandes filmes. A parte surpreendente é que nem toda a gente sabe daquilo a que me refiro. Como alguém que se tem envolvido nestas festividades nos últimos três anos, é difícil acreditar que muitas pessoas ainda não saibam o que o festival é ou o que tem para oferecer. E, com isto dito, o que é que mantém este aspirante a cineasta, de 21 anos de idade, a voltar ao festival ano após ano? Sim, claro que são os filmes (a oportunidade de os ver uns meses antes de saírem é uma vantagem), mas é a comunidade que se junta em Toronto ano após ano, que eu acho que tem o maior efeito em mim; e desta vez não foi diferente.

Há qualquer coisa atrativa acerca da atmosfera do festival. Ver a estreia de um filme numa sala cheia de estranhos pode parecer uma tarefa assustadora, mas toda a gente que está no festival está aqui porque adoram filmes, por isso, antes do inicio do filme, falar com um desconhecido que está ao seu lado sobre o festival, filmes, e projeções futuras, é normal, e na verdade, até recomendo. E tudo isto, claro, a culminar com os próprios filmes; que são as estrelas do espetáculo.

Este ano, tive a oportunidade de assistir a três filmes: Vox Lux, The Old Man & The Gun and First Man. Eu gostaria de ter visto mais, mas parece que aprendi a lição no que toca a comprar bilhetes online – se for, compre os pacotes do festival! Irá incluir vários bilhetes (normalmente 6, 10, 12 ou 20) e garante-lhe essa quantidade de bilhetes. Depois, apenas tem de decidir que filmes quer baseado na disponibilidade e considerando que pode escolher uma semana antes dos membros e duas semanas antes do público geral, faz com que geralmente há uma grande probabilidade de ver os filmes que quer. Mas pronto, todos temos de aprender de alguma forma. Não há necessidade de viver no passado, por isso vamos ver as minhas escolhas e se elas corresponderam ao entusiasmo.

Para mim o festival começou oficialmente com o Vox Lux, um filme que apareceu no horário ao último minuto, mas ainda assim, com grandes expectativas graças ao talento de Natalie Portman, Academy Award Winner (Black Swan 2010). Não houve outro filme no circuito que causasse mais controvérsia do que este. Á superfície, o Vox Lux é uma revolta trágica do talento de uma criança que a torna numa estrela pop glamorosa, mas o que o diretor do filme, Bradley Corbet, é capaz de fazer, torna-se numa sátira social à nossa ‘celebridade’, que nos mostra o poder que damos aos media. Eu sei que parece, de alguma forma, pretencioso, não é? E para alguns, é mesmo isso que parece, mas com o filme envolvido num tom escuro e imensamente perturbador e, ao mesmo tempo, glamoroso e instigante, não se consegue fazer outra coisa senão continuar a ver. O que o trabalho de Corbet faz é algo que hoje em dia não podemos dizer sobre a maioria dos filmes; estimula uma conversa. Honestamente, eu acho que é exatamente aquilo que o festival e a indústria precisam.

De certa forma, eu gosto de olhar para isto como o Mother! deste ano, com a forma metafórica como Darron Aronofsky expôs a bíblia (que se estreou no festival o ano passado). Muitas criticas apontaram os temas excessivamente pregadores, mas ainda assim, alguns (incluindo eu) elogiaram-no. Mas não há como negar que as pessoas falaram sobre isso, e mesmo que não concordem com a direção, temos de os parabenizar por isso; e eu acho que a mesma coisa acontecerá com o Vox Lux.

Seja pelos fortes motivos fascistas, a mudança dramática de tom a meio do filme, ou a controvérsia do filme em si, Vox Lux é sem dúvida um filme a não perder. É uma peça de pensamento dos tempos modernos, de onde o mundo se dirige nos dias de hoje, e quer gostem de admitir ou não, mostra o quão longe ainda temos de ir.

O próximo foi The Old Man & The Gun (a única estreia em que participei este ano). Apesar de, como mencionado anteriormente, este ano a maior parte da discussão focou-se no Vox Lux, mas este filme fez também parte do murmurinho, embora por um motivo diferente; os rumores constam que esta é a última obra do famoso Robert Redford. E por isso, como devem imaginar, tirei proveito desta oportunidade para participar num evento com potencial histórico, e não só o vi, como vivi tudo, da 3º fila – suponho que ver um filme sozinho tem as suas vantagens.

O filme é tão encantador como o canto de um cisne e o protagonista fascinante. É Robert quem se destaca, com o papel do líder carismático num filme de assalto… onde ele nem sequer dispara uma arma; isso não é tarefa fácil para nenhum ator, mas ainda assim, ele fá-lo como se fizesse parte da sua natureza. Quando um filme como este (algo com pouca ação ‘literal’) consegue manter-nos interessados do inicio ao fim, temos de lhe dar crédito. Isto deve-se não apenas ao elenco bem escolhido e equilibrado, mas também ao diretor, David Lowery. Aquilo que respeito muito acerca do David é que ele consegue saltar para trás e para a frente entre vários géneros, dependendo daquilo que a história ou o filme pretendem. O seu trabalho anterior, A Ghost Story (2017), que foi o que inicialmente o pôs no radar, é drasticamente diferente em termos de sentimento e disposição comparado com o entretenimento mais suave dos seus últimos trabalhos. A extensa variedade do trabalho do David é provavelmente o seu talento mais útil, e que me faz esperar ansiosamente pelos próximos anos.

A melhor coisa das estreias é que não nos dão acesso apenas aos filmes, mas também a toda a experiência da passadeira vermelha que está repleta de equipas de filmagens, entrevistadores, entrevistados e depois de assistirmos ao filme, P&R perspicazes com o elenco. Ver estas ‘estrelas’, não apenas como presenças no ecrã, mas como criativos, é incrivelmente humilde. Como um aspirante a cineasta, não há nada mais satisfatório do que ouvir as palavras dos profissionais desta indústria. Para mim, as estreias são a melhor forma de ver um filme num festival, e claro, ajuda se também o filme em si for de grande valor, mas com a estreia é o pacote completo; obrigatório para qualquer fã de cinema. E se ainda estiver a tentar justificar o custo extra de um bilhete de estreia, eu digo-lhe ainda que, estar presente para a ovação final ao grande Robert Redford é algo que nunca ninguém me vai poder tirar, e por isso, obrigado TIFF.

O meu último filme do festival deste ano foi talvez o mais antecipado. Com Damien Chazelle a liderar, que está rapidamente a tornar-se num dos meus diretores favoritos (Whiplash e La La Land), e o poder da estrela vencedora do Globo de Ouro, Ryan Gosling e Claire Foy, este filme tinha tudo para ser um dos melhores do ano, e não foi uma deceção.

A maioria das pessoas conhece bem a história da primeira aterragem na lua, e quando alguém menciona esse assunto, aquilo em que pensamos é nas famosas palavras “Um pequeno passo para o homem, e um salto gigante para a humanidade”, mas o que o First Man capta não é só a história cativante que todos nós conhecemos, mostra ainda os sacrifícios e conquistas que nos fazem ver este evento histórico numa perspetiva diferente. Tanto o Ryan como a Claire demonstram, com facilidade, um nível subtil de intensidade em todas as cenas. O confronto entre as duas personagens permite-nos ver os dois lados, o que não é fácil de conseguir, mas com um texto incrível e um desempenho excelente, o filme cativa-nos desde o inicio ao fim.

Para mim, a verdadeira estrela é Damien, as suas escolhas no uso de close-ups misturado com o uso de camaras instáveis e manuais, faz com que nos sintamos no assento do piloto – desculpe, no assento do astronauta. Com apenas 33 anos (apenas 32 anos quando ganhou o Academy Award para Melhor Diretor, o que o tornou no mais novo a consegui-lo), Damien sabe como abordar o seu trabalho em diferentes ângulos, e é esse ângulo que permite à audiência experienciar cada cena.

O First Man tem tudo, o que me faz acreditar que irá existir o zumbido de um Óscar a chegar, e seria bem merecido. Apesar de o filme não ter vencido o Grosh’s People Choice Award (o prémio mais nobre no circuito; o melhor filme do festival votado pelas pessoas), mereceu o meu voto e os votos de inúmeros outros que estavam ao meu lado no auditório… se é que isso conta para alguma coisa.

E pronto, este foi o meu festival, apenas três filmes este ano, outra vez, gostaria de ter visto mais, mas há sempre o próximo ano. Tenho de dizer que, fiquei completamente impressionado com as minhas escolhas, todas elas trouxeram algo único e deixaram-me com algo em que pensar – e isso é mais do que aquilo que poderia dizer sobre o ano anterior.

Na minha opinião, é isso que torna o TIFF tão bem-sucedido; a soma de todas as partes. Desde os criativos que trazem o seu trabalho todos os anos, à generosidade dos voluntários, e ainda a configuração de cada local. É o conjunto de tudo aquilo que a indústria cinematográfica se esforça para ser. E é por isto que eu continuarei a ir por muitos anos.

E assim, deixo-vos com isto, a promessa de celebridades e de filmes de classe mundial podem seduzi-lo a dar uma oportunidade ao Toronto International Film Festival, mas confie em mim, será a comunidade de amantes de cinema que o irão fazer voltar ano após ano; e eu penso que isso é algo especial.

TEXTO: MARCO PEREIRA

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