Frank Sinatra Vinyl Album

Põe em aleatório

O iPod foi um dispositivo revolucionário. Milhares de músicas no teu bolso, conectadas aos fones de ouvidos, prontos para tocar as tuas músicas favoritas a qualquer momento. 

A minha primeira experiência com um iPod foi curta, já depois do lançamento do iPode Touch quando o meu filho, que fez a sua primeira grande compra com o dinheiro que recebia da distribuição de jornais, me perguntou “Pai, por favor põe alguma música nisto”. Naturalmente, ele queria que eu preenchesse com artistas que ele gostava naquele momento, talvez Green Day ou quaisquer êxitos pop que tocavam na rádio. Até esta altura, eu já tinha adquirido uma grande coleção de audio digital e sendo um pai responsável como sou e que cresceu na era da mixtape, decidi tentar e replicar isso no iPod do rapaz. 

A mixtape da minha juventude foi uma invenção fabulosa. Passava horas na loja de discos da zona, Starr Records – a vasculhar entre as caixas dos vinis mais novos e dos mais velhos, a ouvir o que quer que o Mike Starr tocava atrás do balcão. Às vezes, uma das músicas despertava o meu interesse, mas sendo novo, envergonhado e com medo de parecer pouco fixe, não me atrevia e perguntar ao Mike o que era. Ao invés, esperava pacientemente até que o Mike falasse com um dos seus clientes habituais e depois, espreitava aquilo que ele estava a tocar no gira-discos – The Stranglers, Iggy Pop, The Forgotten Rebels. Depois, regressava às caixas e começava a procurar, antes de regressar ao balcão com a minha compra do dia. Para mim, girava tudo à volta da descoberta da música, o que era muito mais difícil do que nos dias de hoje. Para irmos além da rádio, tínhamos de procurar as coisas, sendo que não existia internet, tínhamos de ter atenção ao que os outros fãs, como nós, ouviam. Quero dizer ter atenção aos que os geeks da loja de discos tocavam e implicava a partilha de música com amigos – e por isso, a mixtape. 

Tudo sobre a descoberta da música

Uma vez em casa, retirava o álbum do papel transparente em que vinha embalado, estudava a obra de arte e lia as notas enquanto ouvia o lado um – to principio ao fim, depois voltava ao gira-discos, virava o álbum e ouvia o lado dois – do principio ao fim. Sempre tive um amor pelo vinil. O barulho de estalidos que fazia, a arte na capa (o que para mim, é o formato ideal para representar visualmente quem e o que está no album). Fazia notas mentais das minhas canções favoritas, já que a maioria geralmente não passava nas rádios, não faço ideia daquilo que os singles seriam. Tinha tabelas pessoais na minha cabeça, listas, de quais eram as melhores canções de cada álbum. 

Com as mixtapes, a maioria eram feitas para prazer próprio. Para tocar no meu walkman, levá-las para o carro ou carregá-las no meu bolso para o caso de encontrar uma emergência de audio. Essas mixtapes eram cuidadosamente escolhidas dependendo do meu humor, a ocasião ou para onde a mixtape ia. Todas incluíam obras de arte, desenhadas à mão e uma lista de músicas no interior, porque ninguém quer uma caixa simples com BASF escrito na parte de fora. 

Ocasionalmente, algumas destas mixtapes eram feitas para serem entregues aos amigos. Teria de ter em conta os gostos deles, mas ainda assim personalizá-las de forma a que eles soubessem de onde vieram. A primeira perceção que tive de que o género de música que ouvia não era o habitual ou apreciada deu-se no 12º ano. Sabendo que eu tinha uma enorme coleção de vinil, um amigo pediu-me que fizesse uma mixtape de música de dança. Passei essa noite a rever toda a minha coleção e a criar uma lista das músicas mais dançáveis para preencher uma cassete C-60 (para os millenials, isso significa 60 minutos de música, 30 de cada lado). Escolhi Depeche Mode, New Order, Trans-X, The Cure, Bowie. Fiz uma lista das músicas no interior e por fora, decorei com os logotipos das bandas. No dia seguinte, cheguei à escola orgulhoso para entregar a mixtape, certo de que iria ser um sucesso. 

No final do dia, encontrei-o nos corredores. O meu amigo foi ao bolso e entregou-me a mixtape de volta, questionando abruptamente, “Que raio é isto?” Eu fiquei confuso e, posso até dizer, um pouco magoado já que as minhas mixtapes eram fruto de muito amor. Aparentemente o meu conceito de dança não era o mesmo do que o dele. Ele queria alguém chamado de Stevie B e uma rapariga chamada Trinere… interessante. Isto, claro, levou a uma exploração mais profunda, com viagens às lojas de discos de Toronto onde os nerds da música foram substituídos pelos Dj’s de discotecas, que lutam pelos novos lançamentos. 

A beleza do vinil e a nostalgia da mixtape serão para sempre parte de mim, mas como geek musical, não há nada que me dê mais prazer do que ter milhares e milhares de músicas num único dispositivo, onde posso imediatamente escolher uma playlist ou pôr em modo aleatório; o que me leva de volta ao iPod do meu filho. 

Enchi aquele iPod de música. Desde Abba a ZZ Top e tudo o que há entre isso, apostando em todos os géneros musicais – jazz, punk, rock, rap. Enchi aquele iPod com tudo aquilo que me vinha à memória e que seria divertido e educational, na perspetiva de um nerd de música. 

Continuei a insistir para ele pôr em modo aleatório, mas os seus instinto era tocar apenas as músicas que conhecia e que gostava, o que faz sentido. Um dia, enquanto víamos a minha filha a jogar futebol, ele estava ligado ao iPod, virou-se para mim, tirou um dos fones, entregou-o a mim e disse, “Tenho em aleatório, ouve este homem a tocar guitarra. Pai, ele é bom, não é?”

“Jimmy Page? Sim, ele é bom.”

“Este é o Jimmy Page? Dos Led Zeppelin?”

Um tempo depois, contei orgulhosamente esta história a um amigo. Quando o meu amigo foi embora, o meu filho olhou para mim e disse, “por favor, não contes mais essa história, pareço estúpido por não saber quem os Zeppelin eram.” Eu disse-lhe que ele não parecia estúpido, ele parecia um génio. Toda a gente consegue gostar de Led Zeppelin se lhes disserem para gostar, mas ele descobriu o esplendor do Sr. Page sozinho… porque pôs em modo aleatório. 

Eu acho que não é muita gente que o faz, por isso vou dar uma ajuda e listar, de A a Z, alguns músicos que considero que fizeram ou fazem a diferença na música. Assim como disse ao meu filho, a minha música não é a tua música, mas tens de a conhecer e respeitar da mesma forma que eu respeito os Beatles ou Sinatra. Não é a minha música, mas influenciou a música que eu amo. 

TEXTO: DAVID GANHÃO
FOTOS: NOAH GANHÃO

Girl in pink standing in front of milk crates full of Vinyl Albums
Girl looks at album on turntable

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