Andrew Coimbra Spring 2020 collection

A escultura do tecido

ANDREW COIMBRA

O e-mail que enviei para entrevistar e fotografar o Andrew Coimbra foi recebido com um entusiástico sim. Enquanto ele fazia scroll pelo instagram do Noah, começámos a planear a sessão; o Andrew irá trazer dois modelos para o AGO onde iriamos fotografar algumas das suas peças da coleção S/S 2020. Pouco tempo depois da nossa chamada, criou um quadro baseado naquilo que imaginaria que funcionaria com o estilo do Noah, para que pudéssemos captar a vibração. Fiquei impressionado. 

Marcámos a sessão para domingo de manhã e combinámos encontrar-nos no AGO – iria estar menos trânsito. O plano estava delineado – o Andrew levaria os modelos a mudar de roupa e encontrarem-se connosco na exibição de escultura de Henry Moore, no segundo andar. Depois de um curto período de espera, o trio apareceu – as modelos vestidas e o Andrew vestido com várias camadas de casacos que seriam necessários para as mudanças de guarda roupa. 

Enquanto as modelos interagiam com a câmara, o Andrew observava, atento para não interferir, além da sugestão ocasional. Ele queria ter o Noah e as modelos Nina e Christian a interpretar as suas peças, sem a sua interferência. A sessão fotográfica terminou em menos de uma hora e sem ser o encontro com um segurança demasiado cuidadoso, tudo correu bem. 

Enquanto as modelos se trocavam para as suas roupas, o Andrew, o Noah e eu conversávamos e quando percebemos que não tínhamos tirado uma fotografia do Andrew decidimos regressar para visitar a sala do Yayoi Kusama Infinity Mirror. Ele concordou em tirar algumas fotografias rápidas tiradas pelo Noah antes de nos abraçar e se despedir e nós ficámos a ver a exibição Early Rubens. 

Gostei da simplicidade e honestidade deste homem e estava desejoso de ficar a conhecer mais sobre o designer e o seu processo criativo. 

LusoLife: Fala-nos sobre Andrew Coimbra – o homem e a marca. 

Andrew Coimbra: Tenho 32 anos (!) nasci em Toronto e atualmente sou designer em Toronto. O meu rótulo começou com uma linha sem género, mas tem evoluindo e já inclui uma gama de moda feminina. 

LL: O que é que despertou o teu interesse em moda? 

AC: Sempre fui criativo; quando era criança comecei por desenhar e pintar e todos os meus professores e familia incentivaram-me a desenvolver as minhas capacidades. Acho que foi pela altura dos meus 12 anos que fiquei fascinado com videos de música e pela forma como a cultura pop poderia influenciar o estilo. 

Ocasionalmente a minha avó cosia em casa e ensinou-me a usar a máquina e algumas técnicas básicas de design padrão. 

LL: O teu pai é dono de um negócio familiar de reciclagem. Segundo os estereótipos, este não seria o ambiente onde um futuro designer de moda seria criado. Achas que esta experiência afetou a sua abordagem ao design? 

AC: Acho que a influência do negócio de familia no meu empreendimento está mais relacionada com a gestão do negócio do que que a abordagem ao design. A minha abordagem ao design foi formada por outras experiências de vida; a minha afinidade à arte, à cultura pop e diria que as relações mais sensíveis/significativas que tive a sorte de ter com amigos e membros da minha familia. 

LL: A tua familia apoiou-te nesta escolha de carreira? 

AC: Apoiou e apoia! Penso que no inicio, o apoio pela experiência criativa deveria estar ligada à ideia de que iria para arquitetura ou algo mais familiar, em termos de negócio. À medida que caminhei mais em direção aos meus próprios objetivos, era mais fácil para a minha familia ver um paralelo de como a minha indústria trabalha. 

LL: Como é que o teu trabalho evoluiu desde que começou a sua marca?

AC: Originalmente a minha intenção era fazer uma gama de roupa para homem simplesmente porque esse era o meu interesse, mas à medida que os estilistas pediam peças emprestadas para sessões fotográficas em que as modelos eram femininas, lembrei-me do quão fluido o meu guarda-roupa (casacos de mulher, calças, etc) é e por isso marquei-o como sendo sem género como a coisa mais importante. 

Depois de algumas estações decidi adicionar uma cápsula de roupa feminina com peças que são tradicionalmente utilizadas por mulheres (vestidos, saias, etc.) para criar uma ligação às peças sem género. A cápsula tem sido bem recebida e na primavera de 2020 a coleção de roupa de mulher tem a sua própria identidade. 

LL: Criar a tua própria marca claramente traz um certo sacrifício pessoal e algum medo. Foi difícil dar o salto? 

AC: Foi – e ainda é – desafiante devido a questões como gestão do tempo, finanças, etc. É um verdadeiro exercício de malabarismo, que tem tanto de complicado como de divertido. Assim que encontre o ritmo que funciona para mim. 

LL: Qual foi a maior lição que aprendeste desde que começaste a tua empresa? 

AC: O tempo é importante. 

Não apenas o teu tempo; o tempo dos outros; metade do desafio é gerir e coordenar as coisas, a outra metade é certificar que as cumpro ou que são cumpridas de uma forma eficiente que não roube às pessoas o tempo que investiram em mim/nos meus projetos. 

Isso e ter um sistema de apoio que te dê vida. 

LL: Tens planos para abrir a tua loja? 

AC: Era um sonho, mas penso que a prioridade é estabelecer primeiro o meu nome para tornar a loja num destino. 

LL: Costumas desenhar peças a pensar em ti mesmo? 

AC: Sim. Gosto de desenhar peças que usaria, mas mais importante ainda que eu veja que possam ser desfrutadas por muito tempo, e não apenas com o caráter temporário de uma tendência. 

LL: Acho interessante a forma como decidiste dividir a tua coleção – “mulheres” que cai num género social construído e em “sem género”. Se estiveres a desenhar uma linha, como decides? Explica a tua abordagem à categoria sem género?

AC: Ambas as colectes têm evoluído. A categoria sem género começou quando os estilistas começaram a pedir as minhas peças emprestadas e a colocá-las em modelos femininas. Pareceu-me tão idiota ter negado essa hipótese uma vez que uso frequentemente peças da seção de roupa feminina. Sempre desenvolvi a coleção com a ideia de não confirmar a estética do estereotipo de roupa masculina, por isso decidir dar um passo em frente e redefinir como sem género senti como uma segunda natureza. 

Uma vez que a marca já tinha a vantagem da aprendizagem de moda masculina, queria estabelecer algumas peças que se parecessem mais especificamente com “roupa de mulher” e que fizessem ligação às outras peças, e para demonstrar aos compradores e investidores o quão versátil a coleção é. De uma perspetiva empresarial, ajuda a garantir um mercado maior. De uma perspetiva criativa, oferecia um desafio divertido e uma saída para as minhas ideias. 

LL: Vens de uma experiência culturalmente diversa. O teu pai é português, a tua mãe é irlandesa e cresceste no Canadá. Como é que a cultura te influencia? 

AC: Penso que a forma como a marca evoluiu para ter uma dualidade na flexibilidade de género é um espelho da dualidade cultural que muitas vezes senti durante o meu crescimento. Os dois lados da minha familia são incrivelmente individuais; a sua cozinha; a lingua materna (e sotaques – ambos em inglês); estilo; estética e a abordagem nas suas prioridades são muito diferentes. 

Posto isto, os seus valores principais são muito alinhados, e com ambos a integrar a sociedade do Canadá, existe uma unificação da identidade; uma forma de existir individualmente num tema comum. 

Não sei se existe uma inspiração criativa direta, mas certamente que tem influenciado a forma como orquestro e comercializo a marca – especificamente o aspeto do novo imigrante canadiano. Para mim é extremamente importante que os modelos que contrato ano transmitam um ideal homogêneo de alguma coisa. 

LL: Vejo que tens a Ilha de Santa Maria, nos Açores, no seu logo. A geografia física da ilha inspira o teu trabalho de alguma forma? Talvez na escolha de tecidos ou cores? Os desenhos estão ligados à sua origem? 

AC: Isso é apenas uma coincidência! O meu pai e a sua família são do norte, próximos da fronteira com Espanha, e nunca fui aos Açores. Eu apenas gosto de formas amebiano! Acho-as equilibradas e um elemento repetido na natureza (como ilustrado por Santa Maria). 

LL: Estamos orgulhosos por estrear algumas das tuas peças da próxima coleção de primavera. Qual é a direção dessa estação?

AC: Estou animado por ser destaque!

Estas peças são da Primavera de 2020, da coleção sem género, que é inspirado pelas praias de cidades como Barcelona, Lisboa, etc. onde existe um equilíbrio entre uma comunidade urbana e ter a liberdade para fugir para a praia. Existe um foco na ideia de um ‘uniforme urbano’ e a subsequente desconstrução com componentes destacáveis para informalizar as coisas. 

LL: Recentemente trabalhaste com a Nico Paulo em Portugal, fornecendo a maioria do guarda roupa para o seu ultimo video. Costumas aceitar projetos deste género? Se sim, varia o teu estilo de acordo com o mood de uma peça?

AC: Adoro colaborar com artistas – é o que torna esta indústria tão especial e forte. Traz uma nova perspetiva à peça, o que é o objetivo final. 

LL: Já alguma celebridade usou Andrew Correia? 

AC: Sim, algumas! A cantora R&B Mya, Alessia Cara, o Majid Jordan da OVO e Charlotte Day Wilson (um dos meus favoritos), Amanda Brugel (The Handmaids Tale) e Ria Mae, entre outros. 

LL: Ainda é entusiasmante veres as tuas roupas a ser usadas na rua? 

AC: Sim, é! Também é muito bom ver as pessoas a identificar e partilhar os seus outfits – na verdade é mais entusiasmante (na maioria do tempo) do que uma celebridade. 

LL: Alguns artistas distanciam-se propositadamente daquilo que os seus colegas produzem. Permites-te ser influenciado pelo trabalho de outros designers de moda?

AC: Estou sempre a ser inspirado por arte e pela cultura pop, mas ultimamente tenho-me focado em trabalhos esculturais e de textura. Adoro as relações entre forma e textura e da forma simples como essas ideias são trasmissíveis para o design de moda pelo desenvolvimento de padrões e fontes de tecido. 

LL: Apesar de não considerar as tuas roupas uma tendência, és dirigido por tendências? Influenciam aquilo que fazes a um determinado momento ou talvez sirvam como algo a que reages? 

AC: Gosto de me manter atualizado sobre as tendências – sobretudo as silhuetas e tendências de cores só para me certificar que não está muito longe do alvo. Normalmente, os compradores de retalho seguem tendências quando fazem a sua seleção e é importante ficar dentro do domínio do que aquilo que vai vender nessa estação. 

LL: Que conselho darias a novos designers.

AC: Se se puderem dar ao luxo, acho que seria importante estagiar em algum lado, pelo menos uma vez. Seria ainda melhor se o pudesses fazer noutro país para ter mais experiências. 

E certificar-se do seu estilo individual enquanto designer, como marca e que estilo te atrai mais. 

LL: É uma boa altura para estar envolvido em moda? 

AC: Penso que com a fluidez de género tornando-se um movimento de vanguarda, é uma ótima altura para estar em moda. A androginia sempre esteve presente, mas identificar e estabelecer a ideia de um sentimento sem restrições de qualquer identidade tem muito poder e liberdade. 

LL: O instagram pode influenciar a forma como as pessoas compreendem aquilo que a moda é. Como é que este aceleramento no consumo afetou a indústria.

AC: Em muitas formas tem abastecido a necessidade para consumo, mas mais recentemente tem vindo a abastecer a necessidade de consciencialização, o que penso que era apenas um questão de tempo. É tão fácil ver os interesses fugazes nas plataformas de redes sociais, existe uma certa riqueza em conseguir aproveitar peça de guarda-roupa mais do que uma vez (outra vez!) E de formas diferentes da última vez. O desafio transferiu-se de uma obsessão pouco saudável com o novo, para um objetivo mais razoável de tornar as peças fortes para sentir como novo. 

LL: No que diz respeito ao sentido de moda, sentes-te responsável para educar o público. 

AC: Eu penso que as pessoas têm os seus estilos únicos e eu desenho com a intenção de permitir que as peças sejam adaptadas aos guarda-roupas de um estranho. A ideia de impor uma imagem a alguém não me parece natural. 

Tudo o que posso fazer enquanto designer é estabelecer um sentimento para a minha marca, com a esperança que ressoa com as pessoas num nível significativo e individual. 

LL: Atualmente, tens alguns designers que te inspiram? 

AC: Os designers em que me inspiro (esteticamente) são Ann Demeulemeester e Damir Doma. Nenhum deles se reflete no meu trabalho mas acho que o trabalho deles é incrível. E, claro, Alexander Wang nas conquistas de negócio. 

LL: O que achas de empresas como a H&M e Zara copiarem o que vêm nas passarelas e transformá-las em produção em massa? 

AC: Odeio e adoro. Existe muito talento e habilidade em ter a capacidade de recrear peças especialmente no espaço de tempo que os revendedores fazem, mas existe também uma completa falta de respeito e honra nisto. O pior de tudo, existe uma falta de arte, que é o maior problema porque no seu núcleo a moda é arte. 

LL: Que outros passatempos tens fora do mundo da moda?

AC: Adoro ler e estou obcecado em colecionar nova música e ver videos de música. 

Também adoro ver documentários e tudo o que alimenta o meu conhecimento trivial. Jeopardy é um dos melhores show de jogos alguma vez desenvolvido, para que saibam. 

LL: No teu website tens uma página dedicada a Dj’s onde dizer que a música como uma grande parte do teu processo de desenvolvimento – o que estás a ouvir neste momento? 

AC: Sim! Adorooo fazer aquele segmento com Dj’s. Tornou-se um bocadinho demais de esforço para coordenar, e como mencionei anteriormente a minha maior preocupação no trabalho é não fazer os outros perder tempo. É algo que quero explorar mais no futuro quando tiver recursos para o fazer. 

No que diz respeito ao que ando a ouvir agora, sou muito cantores pop espanhóis Rosalia, Dawn Richard, Kali Uchis, Sufjan Stevens e tenho revisitado clássicos como Earth Wind & Fire, Kool & The Gang, Cheryl Lynn e A Taste of Honey. Há também um Dj baseado em Toronto que gosto muito e o nome dela é Bambii. 

andrewcoimbra.com

TEXTO: DAVID GANHAO
FOTOS: NOAH GANHÃO

Andrew Coimbra Spring 2020 collection
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