Addiction. Rehabilitation. Repeat.

DEVO-TE $10,000

VICIO. REABILITAÇÃO. REPETIR.

Acabado de sair da reabilitação, ele era gerente de loja numa grande empresa. Limpo há alguns meses, sentiu o desejo de consumir – está na altura de procurar droga. Passam alguns dias. Gastou o dinheiro todo e não tem aparecido no trabalho. O local de trabalho está a autogerir-se e provavelmente, ele perdeu o trabalho. Com o dealer à espera no carro, entra na loja onde trabalha e dirige-se diretamente à casa-de-banho para consumir cocaína. Dirige-se ao escritório e pede ao assistente administrativo para abrir o cofre, que é rapidamente esvaziado para o seu saco. No lugar do dinheiro, deixa um pedaço de papel que diz Devo-te $10,000 e regressa ao carro. Não tinha forma de pagar de volta mas precisava do dinheiro e deixou o bilhete, para não poder ser acusado de crime – esta é a lógica de um viciado. Uns dias mais tarde, quando o dinheiro acabou e estava sóbrio, a culpa começa incutir-se – o que ele fez estava errado, por isso foi à policia. Quem faz isto? 

Ao longo da vida, cruzamos o nosso caminho com várias pessoas. A maioria não terá qualquer impacto em nós enquanto que outros criam uma ligação que fica connosco para sempre. Para mim, o Mário encaixa-se no último. Conheço-o desde que nasci e apesar de as nossas vidas se cruzarem, os nossos caminhos eram muito diferentes. Passei a maioria da minha vida a criar uma familia com a minha mulher e a desenvolver uma carreira. O Mário também tem um filho, dois casamentos e teve grandes sucessos nas variadas carreiras que seguiu. E também lutou muito com o vicio. Os seus pontos altos são tudo aquilo que desejamos mas os seus pontos baixos do Diário de Basquetebol de Jim Carroll. 

No ano passado, o Mário apareceu em casa dos pais depois de passar um tempo a pedir nas ruas, a consumir e a tentar sobreviver. As drogas fizeram a sua magia, transformando-o num ser magro e paranoico com a certeza que alguém vinha para magoar a sua família – e que a culpa era sua. Pediu boleia a pessoas que conhecia e viajou 300km para Toronto numa tentativa de ‘salvar’ os seus pais e o filho – na realidade, eles é que o iriam salvar. 

Quando soube do seu regresso, enviei uma simples mensagem a várias pessoas “O Mário irá contactar-me se quiser conversar”. Nove anos depois, ele assim o fez. Encontramo-nos várias vezes – bebemos muito café e conversámos enquanto eu tentava perceber porque é que as nossas vidas eram tão diferentes. 

Apesar de termos apenas três anos de diferença, enquanto crescíamos, ele era o primo cool mais velho que nos visitava de Toronto, ou se tivesse sorte conduzimos até uma cidade grande e eu poderia espreitar um pouco o seu mundo. De volta a casa, tentava imitar o seu estilo, e com a falta de um irmão mais velho, passava semanas na escola a gabar-me das nossas aventuras, na sua maioria inventadas. Infelizmente, quando tinha 11 anos, o Mário era um adolescente e aos 14 anos ele entrava e saía durante as nossas visitas – claramente ele era alguém conhecido nesta zona, por isso seguia-o até ao quarto e ficava a admirar a sua coleção de discos enquanto ele se preparava para uma saída à noite. Admirava a forma como em casa ele assumia o controlo – era exigente na alimentação e, em casa da minha tia, quando fez cara feia ela alcançou a sua bolsa e deu-lhe dinheiro para comprar uma pizza de pepperoni. Voltou mais tarde, com a pizza na mão, alguns bolos da pastelaria ao lado e sem troco. O poder que ele tinha era inacreditável. A minha mãe fez-me comer o que estava à minha frente, mas felizmente isto só iria acontecer mais alguns anos. Em breve, a mim também me dariam dinheiro para comprar o meu próprio jantar, foi o que pensei. 

Nos jantares de familia, tínhamos direito a um copo de vinho com os adultos, o que era muito normal em casas portuguesas. O que não tinha percebido até muito mais tarde é que aos 5 anos de idade, o Mário já tinha notado que, nos convívios de familia, os adultos estavam sempre a rir-se e a divertir-se – o denominador comum era o liquido que seguram nas mãos. “Comecei por algumas bebidas e desde aí, continuei a usar diferentes substâncias para me sentir bem”. 

A pior coisa que pode acontecer a um jovem viciado é nada – quando não existem consequências, não vêm nada de errado e o vicio aumenta. As nossas conversas revelaram que este foi o inicio. Ter acesso a bebidas aos cinco anos evoluiu para fumar erva com os amigos aos 14 anos o que evoluiu para substâncias maiores e mais perigosas. 

A cocaína estava bastante presente nas discotecas de Toronto e não havia hesitação em experimentar. Abastecido com álcool e cocaína, a noite era sua – sentia-se ótimo, provavelmente falava demais mas tinha energia para dançar a noite toda, e isso é que era importante. Os efeitos negativos da droga só se evidenciavam mais tarde – a raiva, hostilidade, depressão, paranóia e psicose. Claro que essa não era uma preocupação, porque sendo jovem = indestrutível = experimentava tudo, por isso quando uma amigo levou a cocaína que tinham comprado e começou a cozinhá-la com uma colher e bicarbonato de sódio, ele ficou curioso. “Não tinha ideia do que ele estava a fazer. Perguntou se eu já tinha experimentado – e eu não tinha, mas tinha gastado tanto dinheiro em droga, por isso claro que ia experimentar… depois apaixonei-me por aquilo.” A cocaína tornou-se na minha droga de eleição. 

Entra o miúdo dos suburbios. Aos 18 anos já ia para discotecas e quando surgia a oportunidade de sair com o meu primo mais velho, ia logo. A minha estreia neste estilo de vida foi especialmente sedutor, esta discoteca era incrível – uma mistura de cimento e aço com correntes a dividir as paredes e esculturas ecléticas por todo o lado. Um local onde as pessoas bonitas eram escolhidas na fila para entrarem, mas não o Mário – caminhámos até à porta e acenaram-nos imediatamente parar entrar naquilo que parecia uma pintura de Dalí ao vivo. Estava a caminho da discoteca na cave onde a Madonna e o Prince já tinham estado – surreal. Bebemos, dançámos, convivemos, ele desaparecia e reaparecia, presumi que ele estava a falar com alguém, ou talvez tivesse uma bexiga pequena, porque outro motivo continuaria a ir à casa de banho? Duas da manhã e estava na altura de irmos embora, mas era muito cedo para ir para a cama por isso fizemos um desvio e fomos a uma discoteca no Kensington Market – o meu primeiro vislumbre da parte decadente de Toronto. Ao caminharmos para a porta, o Mário parecia alerta – olhava para todos os cantos e por detrás dos carros – parecia paranoico, o que o meu eu de 18 anos achou peculiar mas até divertido. Subimos as escadas até uma porta trancada, parecia algo saído de um filme – super entusiasmante. Quando entramos na realidade e o medo assentou – todos com quem estávamos trancados nesta sala estavam drogados – todos menos nós, depois ele desaparecia outra vez. Naquela altura, Toronto estava repleto de discotecas after-hours que a policia ignorava e que servia fins de prostituição, drogas e jogo. Quando fiquei sozinho foquei-me num homem que num ritmo rápido se dirigia entre a janela e o centra da sala, murmurando para si próprio sobre pessoas que vinham para o buscar. Meu Deus, o que é que o Mário andava a fazer com este grupo? Estava feliz por vê-lo regressar, poderíamos ir embora em breve, mas primeiro sentamo-nos numa mesa onde desembrulhou um pequeno pacote e despejou o seu conteúdo na mesa, onde fez umas pequenas linhas – cocaína. Ele consumiu à minha frente mas não me ofereceu – não era um fanático religioso a tentar converter as outras pessoas a acreditar na sua visão, era um homem que não queria dar os seus problemas aos outros – respeito. 

Na minha cabeça, já revivi esta noite vezes sem conta nos últimos 32 anos, com opiniões muitos diferentes. O meu eu de 18 anos olhava para o Mário como um rapaz de festa eclético – ele andava dos dois lados da vedação com pessoas incríveis e com os degenerados – mas sem dúvida que ele não era um viciado. O meu eu com 50 anos compreende melhor o que se estava a passar, com menos julgamento dos degenerados e mais critico das pessoas incríveis. 

Existe um certo romance associado a certos vícios – o Sinatra a beber um bourbon, Bowie a segurar um cigarro e, ainda que com um fim trágico, Johnny Depp a interpretar George Jung em Blow. A cultura pop fez com que estas coisas parecessem atrativas e aceitáveis – não as vemos como vícios. As pessoas julgam aqueles que têm vícios. Ver o meu primo a consumir algumas linhas de cocaína tornava-nos muito mais cool do que os crackheads e viciados em heroína que nos rodeavam. Ele não era um viciado – ele tinha a vida organizada. Tinha um ótimo trabalho, estava sempre bem vestido e em poucos anos, estaria casado. Claro que isto não era a realidade. Passou 60 dos seus 90 dias casado fora de casa. Obviamente que a sua mulher assumiu que ele andava a dormir com outras mulheres, mas ele disse-lhe a verdade – eram as drogas. Ela sentiu-se aliviada, “então pára”. Não era assim tão simples. Nunca é assim tão simples. Reabilitação, repete. 

Passaram anos e nós víamo-nos ocasionalmente. Eu casei-me, tivemos filhos e a vida do Mário ia saindo silenciosamente do seu controlo. Ocasionalmente ouvia, através de algum parente, se ele estava ou não bem – pouco mais que isso. Isto era uma cruz que a familia mais próxima decidiu carregar de forma silenciosa. Quando soube que ele estava em baixo, enviava ocasionalmente uma mensagem – Feliz Aniversário… Feliz Natal… Hey… Sem resposta. 

Reabilitação, mudança. 

Finalmente aconteceu a tão esperada mudança – houve muitas outras anteriormente, mas esta parecia diferente. Um desvio das tentações da cidade, uma mudança de carreira e outro casamento. Festejei silenciosamente ao longo dos anos – um ano, dois anos, três, quatro, cinco, seis, sete, oito anos limpo, repetir. O quê? Como? 

Não estava à espera da recaída de 2014, no entanto não estava surpreendido uma vez que há sempre um padrão. Quando bateu no fundo, entrou na reabilitação onde encontrou a claridade que precisava para se manter saudável.  Voltou ao mercado de trabalho sempre seguido por sucesso nos seus negócios. Nesta altura, sentiu-se em controlo e o seu ego entraria em ação – está na hora de consumir. Repetir. 

Como é que alguém que está limpo à oito anos e vive uma boa vida cai de novo no vicio? Desenvolveu outro vicio – o jogo. “Algumas semanas limpava $10,000 e gastava tudo porque sabia que iria haver mais. Via o casino como um escape – trabalhava muito e não era feliz com a minha vida. O meu ego entrou em ação e comecei a jogar como um “big shooter”. Uma noite, do casino a caminho de casa, estava a ter uma discussão com a agora minha ex-mulher e pensei “Que se lixe, vou encontrar droga e ficar high. Não tinha desejo de consumir, foi um “foda-se”. Telefonei a um serviço de prostituição e passado pouco tempo estava a encontrar-se com uma das suas raparigas, que estava mais do que feliz de aceitar o seu dinheiro a troco de droga em vez de sexo. Dois dias depois era uma pessoa desaparecida. “Eu não saiu por uma noite. Se eu saiu, podem ver-me só na semana seguinte porque eu continuo até esgotar todos os meus recursos. Torno-me um perigo para a sociedade porque vou vagueando à procura de formas de obter droga. Sentes-te julgado mas não queres saber porque aceitaste aquele estilo de vida”. 

Criava brigas com a mulher para ter uma desculpa para sair de casa e consumir. O vicio não quer que tenhas uma relação; não quer que vás trabalhar; não quer que tenhas amigos. O vicio quer que te rodeies por pessoas como tu e que te isoles da familia. Ele ouviu o vicio, deixou a sua mulher e mudou-se com a namorada que era também a sua dealer. Tentou ser um viciado funcional – ir trabalhar e consumir em casa mas não resultou. Desta vez, o vicio iria levá-lo ao fundo do poço – gastou centenas de milhares de dólares, perdeu a mulher e a sua propriedade e num período de 24 horas iria entrar numa espiral mais profunda do que qualquer outra. “Perdi tudo numa noite. Estava a ganhar $6,000 por semana e a gastar tudo. O meu patrão despediu-me nessa semana e emprestou-me $14,000 que não me pagou, a minha namorada expulsou-me de casa e ficou com o meu carro que estava no nome dela para evitar ter de pagar multas de estacionamento. Estava sem dinheiro da noite para o dia – a jogar e consumir.”

Já passou por 18 reabilitações nos últimos 30 anos – é o custo alto de uma vida ‘vida baixa’ que a maioria de nós não compreende. Se a cura do cancro fosse ir a algumas reuniões semanais e deixar de beber, a maioria dos doentes de cancro diriam “Muito Obrigada”, no entanto, um viciado que muitas vezes sofre também de uma doença terminal diria “Estás maluco? Para quê fazer tudo isso? Porque haveria de parar tudo se só tenho problema com uma coisa?” O álcool pode não ser um problema teu, mas pode deixar-te num estado onde estarás mais disponível para correr riscos o que te vai levar a um caminho demasiado familiar; vicio, reabilitação, repetir. 

Conhecer esta história deu-me a oportunidade de passar tempo com o meu primo – sem interrupções, tempo de qualidade – beber café e conversar, acerca do passado e do futuro. Estou a terminar esta história após celebrar o seu primeiro ano limpo. Ele considerou que seria uma má ideia celebrar algo que a maioria das pessoas consegue sem esforço. Rapidamente terminei essa conversa, sabendo bem que todos nós estamos à distância de uma má decisão para nos tornarmos naquilo que mais tememos. Seguindo o exemplo, um passo em direção ao melhoramento merece sempre reconhecimento. Um ano limpo e o Mário parece estar a a aproveitar a vida normalmente e eu estou orgulhoso da sua nova direção: vicio, reabilitação, esperança.

SE ESTÁ A BATALHAR COM ALGUM VICIO, EXISTE AJUDA.
CENTRO DE SAÚDE DE ST. JOSEPH:: 416.530.6141
GRATUITOE: 1.866.366.9513

TEXTO & ILUSTRAÇÃO: DAVID GANHÃO

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