Whitby Public Library
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Os palácios das pessoas

BIBLIOTECAS

As memórias de infância são uma coisa estranha. A maioria de nós consegue lembrar-se de algumas coisas do passado que nos faziam felizes – tenho um cérebro repleto de memórias aleatórias que remontam aos dois anos de idade. Uma que ressurgiu recentemente, foi uma visita à biblioteca com o meu primo Tony. Por motivos que ainda estou por compreender, o Tony estava sempre disposto a ter um miúdo indisciplinado como companheiro de viagem (obrigado). Lembro-me de navegar pela secção das crianças e selecionar um livro de imagens para levar para casa – algo com um monstro roxo na capa (penso que era Meet Monster, mas posso estar enganado). Mais importante do que o livro, foi o papel laminado que me foi emitido. A bibliotecária ficou com a minha informação, o Tony assinou também e disse-me que o cartão estaria pronto na próxima visita.

Embora, os meus amigos nunca me descrevessem como o “estudioso”, ainda passei parte da minha infância na biblioteca. Durante os primeiros anos, as visitas eram limitadas à secção das crianças e estava sempre acompanhado de um adulto – ou eu e o meu primo Tony caminhávamos 15 minutos ou a minha tia Margaret metia-me a mim, à minha irmã e primos no Impala de 1966 para uma tarde de livros. Passava o meu tempo à procura de livros com vampiros e monstros ou foguetões ou magia. Víamos filmes e no Halloween vestíamo-nos a rigor para a hora da história.

A secção das crianças na nossa biblioteca de Oshawa é no rés-de-chão – um espaço grande com acesso a um lindo jardim – mas eu queria acesso à magia que acontecia no andar de cima e assim que o consegui, já não havia volta atrás. A biblioteca principal abriu um nível de liberdade novo. Era grande, tinha várias salas e arte pendurada nas paredes. Nas palavras de Andrew Carnegie, era um “palácio das pessoas”.

Carnagie tinha muito a dizer sobre bibliotecas. O industrialista do século 19, considerado o homem mais rico que alguma vez existiu na América, é uma figura controversa. Ele passou a primeira parte da sua vida a acumular uma fortuna de cerca de $420 biliões, no equivalente aos dias de hoje, e os últimos 18 anos a cumprir uma promessa que fez a si próprio – dar toda a sua riqueza. A sua missão de “tornar a terra um bocadinho melhor do que a encontrei”, tinha como principal foco a educação gratuita, o que incluía o financiamento de bibliotecas públicas. Foram construídas cerca de 2,509 bibliotecas a nível mundial, incluindo 125 no Canadá que encorajaram a literacia nas comunidades pequenas.

Estas bibliotecas foram construídas com tetos altos, janelas largas e salas espaçosas onde as pessoas se podiam sentir confortáveis a ler e a pensar, independentemente do seu estatuto socioeconómico. Criou instituições onde as pessoas que trabalhavam em fábricas podiam sentar-se ao lado de um médico e escapar para a sua própria mente.

Passei a maior parte da minha vida a “escapar” em bibliotecas, por isso preocupa-me quando as pessoas as consideram instituições antiquadas. Imagino que essas são as pessoas que vêm as bibliotecas como museus para livros. Aos seus olhos, para quê entrar num edifício com tanta informação quando podemos obter todas as respostas com os nossos telemóveis. Infelizmente, são também muitos políticos que tomam esta posição que é evidente na redução dos fundos às bibliotecas públicas.

Essas pessoas não entendem. A biblioteca está num estado constante de reinvenção e no século 21, isto significa que os livros são apenas uma pequena parte do que está a ser oferecido. Podes sentar-te, a ouvir um novo audio-book enquanto usas o Wi-Fi, vês o que aconteceu durante o dia no New York Times e saboreias o teu café enquanto esperas que o resto do teu grupo chegue para o Workshop de Impressão 3D das 12h. E mais importante, as bibliotecas encorajam a comunidade e os encontros pacíficos que dela advém. Até hoje, ainda nunca vi ou ouvi a polícia ser chamada a uma biblioteca para acabar com uma briga.

A biblioteca é um templo dedicado ao conceito de partilha – a partilha de livros, pensamentos e espaço. Representam a liberdade de ideias, retratam-se na imaginação e nós temos a sorte de as termos herdado. São um sítio seguro para os adolescentes estudarem ou jogarem jogos com os amigos. Um local com recursos para as pessoas procurarem emprego. Um espaço onde os nossos futuros líderes estudam e onde aqueles que precisam de uma assistência especial podem passar tempo. A casa para as vozes do passado e a inspiração para os pensamentos do futuro. Devem ser valorizadas e aproveitadas.

Quando lhe perguntaram como poderíamos fazer as nossas crianças inteligentes, Albert Einstein respondeu, “Se querem que as vossas crianças sejam inteligentes, leiam-lhes contos de fadas. Se querem que sejam ainda mais inteligentes, leiam ainda mais contos de fadas.” Isto começa com um cartão da biblioteca.

O meu cartão já estava à minha espera quando regressei para devolver o Meet Monster. Este cartão era muito especial para mim – tinha orgulho de o ter e durante muitos anos, era a única coisa que carregava na carteira do meu pai. Senti que tinha sido incluído no clube de leitores de elite. Senti-me inteligente. Era um membro do palácio das pessoas.

TEXTO: DAVID GANHAO
FOTOS: NOAH GANHÃO

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