Human trafficking illustration by David Ganhão
davidganhao.com

Uma armadilha silenciosa

Forçados, enganados e iludidos para a escravidão moderna. Uma armadilha silenciosa desenvolvida ao longo de meses – onde no processo se constrói confiança ao mesmo tempo que se arruínam as outras relações. 

Tráfico Humano. A definição das Nações Unidas declara o seguinte “inclui o recrutar, transportar, fazer transferência, albergar ou receber pessoas com o propósito de as explorar.” Estudos demonstram que é uma atividade ilegal que anualmente gera cerca de US$ 150 mil milhões. O mais impressionante é o facto de, hoje, existirem mais pessoas escravizadas do que em qualquer outra altura da história mundial – mesmo quando a escravatura era legal. Estima-se que existem globalmente mais de 30 milhões de escravos, dos quais 10 milhões serão crianças. Cada caso representa uma vida destruída, uma vida com base no medo e uma vida sem livre arbítrio. 

É um problema que a sociedade tem tendência a ignorar porque pensa que só acontece a milhares de quilómetros de distância, em outros países, quando na realidade reside no quintal de todas as comunidades. A infeliz realidade é que quase metade das vítimas são traficadas domesticamente, dentro das fronteiras nacionais. Estima-se que 51% das vítimas são mulheres, 28% são crianças e 21% são homens. A nível internacional, a cada 30 segundos uma criança é raptada, para prostituição, trabalho forçado ou colheita de órgãos. 

Como era a tua vida aos 17 anos? Estavas a apaixonar-te? De férias com os amigos? A escolher cursos para a universidade? É uma ótima idade. É também a idade média das vítimas de tráfico sexual, sendo que mais de metade das vítimas são recrutadas por pessoas que conhecem. É um “negocio” próspero principalmente porque as vítimas são vistas pela sociedade como párias – viciados, sem-abrigo, prostitutas – considerando muitas vezes serem crimes sem vítimas. 

Naturalmente, a internet tornou-se numa ferramenta fundamental para encontrar novas vítimas e para seduzir “possíveis compradores”. Os criminosos aliciam e têm como alvo os mais fracos e vulneráveis, apresentando-se amigavelmente como alguém que os pode ajudar a resolver os seus problemas. Procuram pessoas com baixa autoestima; com possíveis traumas no passado; com vidas familiares instáveis; ou aqueles que vivem na pobreza e com falta de opções financeiras. 

Isto traz-nos à pandemia que pode colocar muitas mais crianças em situações vulneráveis – não podem sair, mas estão em casa em contacto com pessoas nas redes sociais. Para além de monitorizarem regularmente as suas crianças, existe um numero de sinais de alerta a que podemos estar atentos para identificar possíveis vitimas de tráfico: hematomas, ferimentos ou outros sinais de abuso; tatuagens ou queimaduras (branding) com o nome de um homem; um/a “namorado/a” mais velho/a e controlador/a; isolamento social dos amigos e família; mudança repentina nas suas posses (ex. roupas e acessórios caros); utilização de roupa ou um perfil online de cariz sexual. 

São várias as vezes em que as pessoas são traficadas, mas não têm noção do que está a acontecer com elas. Muitos acreditam estar numa relação com o seu abusador/a ou estão abstraídos do facto de estarem a ser explorados. Assim que se apercebem da sua situação, são invadidos pelo medo, a vergonha e a culpa, o que os impede de pedir ajuda – uma armadilha silenciosa. 

Nos últimos meses, o documentário do Netflix Jeffrey Epstein: Filthy Rich consciencializou muitas pessoas para a realidade do tráfico sexual. Existem muitos outros documentários disponíveis no YouTube e que podem ser vistos de forma gratuita – selecionámos alguns para ajudar a ilustrar o problema através de histórias reais.

Se és uma vítima ou sobrevivente de prostituição forçada ou trabalho forçado, ou acreditas que outra pessoa possa ser, liga para a linha multinacional 1-833-900-1010
canadiancentretoendhumantrafficking.ca

I AM JANE DOE
WATCH
TRÁFICO SEXUAL

Três histórias verídicas de raparigas que foram vendidas e compradas nos Estados Unidos através do site backpage.com – um site que controla cerca de 80% o mercado online de anúncios sexuais.

MA: 13 anos. Depois de estar desaparecida durante 270 dias, a sua mãe encontrou um website com as suas fotos e ela própria, pediu para comprar os seus serviços. 

MÃE: “Recuperámo-la, mas ela estava viciada em drogas. Tinha sido abusada e ainda fugiu mais duas vezes. A minha filha foi esfaqueada, queimada, raparam-lhe a cabeça, bateram-lhe”.

FACE TO FACE WITH SLAVERY
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ESCRAVATURA

A jornada de dois cineastas voluntários na linha da frente da escravidão à volta do mundo – Nepal, India, Gana e Congo. Free The Slaves é uma organização que resgata e ajuda pessoas a reintegrar a sociedade, construir mais capacidades e a viver uma vida melhor. 

KAMALA (NEPAL) “Fui enganada. Fui traficada pela minha própria tia. Por isso não sabes em quem podes confiar. Faziam-me trabalhar das 5h da manhã à 1h da manhã do dia seguinte, e não me pagavam.” 

SANJAFI (INDIA) “Levaram-me para trabalhar num forno de tijolos. Vi as cabanas das pessoas a serem queimadas e atiraram as minhas coisas para o fogo. Fomos libertados, mas sofremos muito. Um trabalhador do nosso grupo morreu por lhe terem batido tanto.”

NAMELESS
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CHILD TRÁFICO SEXUAL DE CRIANÇAS

Nameless é um documentário que revela o tráfico sexual em Washington D.C.

TINA FRUNDT, DIRETORA EXECUTIVA DA COURNEY’S HOUSE “When you are with a pimp, they pick your name for you.Each one, renames you. Very similar to slavery (…) People are judging you, so you can’t go to them. They think it’s a choice, so now I have to pretend that this is what I want to do, to fit in, so you won’t think bad about me. You lose hope.”

NATASHA GUYNES, UNDADORA DE UM CENTRO DE RESILIÊNCIA “They didn’t care about my well-being, that I was hurting inside, they didn’t care that at the end of the day I would drink whisky and smoked crack as a way to leave my body because of the trauma I was putting myself through.”

NAMELESS
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TRÁFICO HUMANO

Um documentário com foco em Hampton, na Virgínia, mostrando como crianças, alunos da universidade e adultos se encontram muitas vezes sob o controlo de alguém antes de se aperceberem disso. 

TANYA STREET “Fui atraída para o trafico sexual aos 18 anos, quando conheci um rapaz através de um amigo, ele comprava-me as coisas que eu queria, era bonito, tinha um sorriso lindo… Tinha 28 anos. Eu já era independente, tinha um bebé, vivia sozinha e estava a preparar-me para entrar na universidade. Por isso não considerei que a nossa diferença de idades fosse muito relevante (…) Continuámos a falar e começámos a namorar. Foi assim que começou. Tinha sofrido abusos por parte de um membro da família desde que tinha 7 anos até aos 14. Por isso, não tinha pessoas na minha vida que considerasse um apoio, ou apenas alguém com quem falar. Este homem, ele ouvia-me (…) Disse sim a uma relação com ele, ao que ele me pedia, à parceria com ele para manter a nossa relação. Durante todo o tempo estive a ser traficada, mas aquele era o meu pensamento.”

WORDS: INÊS CARPINTEIRO
ILLUSTRATION: DAVID GANHÃO

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