Moka Pot

É expresso

NÃO É EXPRESSO

Era uma vez numa terra muito distante, foi oferecida uma chaleira mágica a uma princesa no seu dia de casamento. A chaleira mágica era utilizada diariamente pela princesa para criar ouro – ouro líquido – que ela oferecia a todas as pessoas que a visitavam no castelo. A chaleira mágica era um valioso tesouro de família que eventualmente seria oferecida ao Príncipe Nicola, o primogénito, mas infelizmente, isto não viria a acontecer. Contra a vontade da mãe, o príncipe Nicola levou a chaleira mágica numa missão para a terra do sol e areia e prometeu protegê-la com a sua vida. Quando deixou a chaleira sem supervisão e sem proteção, dois vizinhos gananciosos, que tinham seguido Nicola, entraram e raptaram a chávena, obrigando-a a fazer-lhes um pote fresco de ouro. A chaleira fabricou sem parar, mas os raptores adormeceram e ignoraram o som borbulhante que alertava para uma chávena cheia de ouro. Quando finalmente acordaram, a chaleira tinha-se desfeito em chamas, acabando como um pedaço de alumínio derretido, sem utilidade.

A chaleira Moka, carinhosamente conhecida como a macchinetta pelos meus amigos italianos ou a máquina de espresso por outros, foi uma revelação para os consumidores de café. Antes de 1933, beber espresso era um assunto público tendo em conta o tamanho grande das máquinas, o seu custo elevado e não serem construídas para ter em casa. Alfonso Bialetti, um engenheiro italiano mudou isso, ao inventar o Moka Express – pequeno, acessível e estiloso.

Nos anos 50, já estava em curso uma invasão Moka, e as máquinas eram decoradas por toda a parte com os utensílios de cozinha modernos. Um design simples, com três peças separáveis: A parte de baixo, cheia de água quente, o filtro que armazena o café moído, e a seção de cima onde surge o café fervido.

Virtualmente sem alterações desde a sua invenção, a macchinetta tem-nos servido bem durante décadas. Um número incontável de refeições terminaram com o som da macchinetta a ferver e a encher-se com este ouro liquido, recentemente muitas pessoas abandonaram esta tradição a favor da conveniência. Estas cafeteiras descartáveis têm vindo a aparecer nas cozinhas prontas para servir qualquer sabor dentro de minutos, desde chocolate quente negro a biscotti de baunilha, mas a que custo? A esta altura, já todos temos percebemos que as cafeteiras são feitas de plástico ou alumínio e estão a ocupar muito espaço nos aterros, além disso vamos ver os problemas de saúde que podem causar – aquecer plástico e injetar os seus (maus) químicos; o alumínio está ligado ao autismo, ansiedade, depressão, Alzheimers e outras doenças (pior); estas máquinas de café não podem ser escoadas, por isso as suas linhas escuras, quentes e húmidas são um terreno fértil para o bolor (muito pior e nojento). Apesar de a cafeteira ter tantos pontos negativos, continua a existir muita procura – deve ser difícil resistir a um Nespresso quando o embaixador global é o George Cloney.

Para mim, a criatividade na utilização da macchinetta e ver o líquido dourado a ser fabricado, irá sempre ter um valor maior do que a gratificação instantânea da cafeteira. Delicioso.

E também adoro as histórias que a macchinetta nos tem dado – já viajou para piqueniques, foi a acampamentos, e o conto de fadas ao início… é uma história verídica. No seu dia do casamento, a minha amiga, Maria, a mãe do Nick, recebeu uma macchinetta da sua mãe. Mais de 20 anos depois, o Nick foi a Daytona Beach para umas férias com amigos (vou chamar Tony aos dois, para não incriminar ninguém) e pediu à mãe para levar a chaleira. Relutantemente, ela disse sim, relembrando-o do valor sentimental e fazendo-o prometer que ia ter cuidado. Depois de uma longa noite de festa e bebida, os dois Tonys regressaram ao quarto de hotel e decidiram fazer café. Puseram a macchineta no fogão e adormeceram, acordando várias horas depois ao som o alarme de incêndio. Nessa altura, já a água tinha evaporado, a chaleira de alumínio tinha derretido e a sua tampa de plástico era a única coisa reconhecível – um final triste para uma incrível peça de engenharia de café.

 

TEXTO: DAVID GANHÃO
FOTO: NOAH GANHÃO

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